Recebi de uma rede de informações para comunidades escolares esta breve nota sobre intolerância ao glúten, e pensei que o assunto merecia ser compartilhado, com alguma contextualização, logo abaixo.

Se já é difícil fazer as crianças comerem quando não apresentam intolerância a certos alimentos ou ingredientes, imagine aquelas que não podem consumir nada que leve glúten na composição? Para se ter ideia […]

via Saiba como lidar com a intolerância ao glúten — Escolas do Bem

Agora, o que tem a ver a intolerância alimentar com crianças vegetarianas?

Os fatores que nos envolvem em crescentes e diferentes intolerâncias alimentares podem ser múltiplos: aumento do estilo de vida sedentário, inserção de alimentos transgênicos no mercado e no cardápio social sem suficientes pesquisas quanto aos seus efeitos, distanciamento literal e simbólico entre consumidores e a origem de seus alimentos, aumento de inflamações crônicas e da incidência de quedas imunológicas devido a fatores biopsicossociais e epigenéticos, entre outros.

Um artigo do Instituto Nacional de Saúde Pública e Ambiente dos EUA buscou avaliar os fatores de risco associados a alergias alimentares, considerando o impacto de micróbios, tóxicos ambientais, dieta e estilo de vida, e indica que entre 2 a 6% das crianças estão sendo diagnosticadas com essa condição, enquanto que na população adulta a incidência varia entre 2 e 3%. O artigo conclui que as várias hipóteses estudadas ainda são poucas e insuficientes para determinar os efeitos de fatores externos na alergia alimentar. Em outro recente estudo, realizado no Texas, EUA, publicado em 2017, a conclusão é de que a crescente urbanização contribui para o nexo entre meio ambiente e as alergias alimentares. O estudo afirma que, ao se identificar as causas das alergias alimentares, recomendações podem ser feitas para a melhoria da qualidade de vida das pessoas envolvidas.

Enquanto nosso corpo humano reage sintomaticamente a mudanças e degradações socioambientais, o glúten, a lactose e outros “alimentos intolerados” são rotulados como vilões, e retirados do cardápio. Resolvido, certo? Consideremos outra hipótese: o aumento no número de crianças vegetarianas poderia nos ajudar a revelar nosso papel nesse panorama. A resposta trazida por crianças vegetarianas a fatores de degradação socioambiental pode ser uma ação em busca de reverter as causas e os riscos relacionados às alergias alimentares.

Se refletirmos sobre o ato de eliminar certos alimentos do cardápio, e de melhor selecioná-los, vemos que as restrições alimentares podem ser vistas tanto como uma ação terapêutica — por força das circunstâncias, no caso das crianças identificadas com sintomas de alergia alimentar — como também uma atitude preventiva, de mudança de curso, visando a diminuição de riscos e a superação de ciclos destrutivos que afetam negativamente a saúde humana — no caso da opção feita pelas crianças por uma dieta vegetariana.

As crianças são obviamente sensíveis aos sintomas de degradação socioambiental, e respondem ao mundo de acordo, seja através de doenças adquiridas, como alergias, ou através de soluções propositivas, como a readequação alimentar vegetariana. No caso das vegetarianças, elas selecionam seus alimentos para evitar diversos danos ao meio ambiente e a si mesmas, mostrando à sociedade a importância de agir com sensibilidade, junto com a reflexão profunda sobre o impacto socioambiental da escolha de nossos alimentos. Essas crianças estão de certa forma promovendo uma conscientização que poderá nos ajudar a entender melhor algumas das causas por trás das intolerâncias alimentares.

Mas, como está “nossa tolerância” em relação às crianças vegetarianas? Considerando as poucas estimativas existentes no Brasil sobre o número de vegetarianos, que segundo esta enquete do IBOPE pode chegar a 8% da população no país, por que a alergia alimentar diagnosticada autoriza — por lei e políticas nutricionais públicas — a adequação do cardápio escolar, enquanto que a opção vegetariana raramente encontra espaço nas escolas do país? Lembremos o estudo acima citado, avaliando que a intolerância alimentar nos EUA varia entre 2 e 6% da população infantil. Estimativa de vegetariano s no  Brasil: 8%. É claro que precisamos de dados mais consistentes sobre o Brasil, tanto para diagnósticos de intolerância alimentar quanto para crianças vegetarianas, para que qualquer comparação seja possível de fato, mas as indicações são de que ambas as populações são consideráveis, estão em crescimento e precisam ser contempladas.

Será que nossas leis, cardápios escolares, campanhas educativas de saúde alimentar, políticas de inclusão social, e outras responsabilidades sociais relacionadas à nutrição, educação e saúde integral refletem o acolhimento que queremos oferecer às crianças? Será que apenas esse tipo de diagnóstico médico deve ser acolhido? É coerente vetar o vegetarianismo em espaços educacionais públicos, onde a promoção do bem-estar socioambiental deveria ser estimulada? Estamos acertadamente lidando com a intolerância alimentar, por questões crônicas de saúde. Ao mesmo tempo, na ONU e em muitos países, incluindo Portugal, as novas orientações de saúde recomendam a dieta vegetariana em políticas públicas. Será que conseguimos também perceber os benefícios à saúde, à sociedade e ao meio ambiente que acompanham as opções feitas pelas crianças vegetarianas? Podemos enxergar e tolerar suas intenções e ações? Podemos permitir que ajudem o mundo?

 

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